Praia das Maçãs

 

Seguíamos de comboio até Sintra, eu pagava um quarto de bilhete, os bilhetes na altura eram de cartão grosso, azuis ou rosados, o comboio tinha longos bancos escuros de napa e janelas que se podiam abrir. Depois disso tomávamos um autocarro até à Praia das Maçãs. O autocarro estava quase sempre cheio, se houvesse um lugar eu e meu irmão íamo-nos sentando à vez. A minha tia vestia um biquíni, penso que para a altura era moderno, e em vez do tradicional creme nívea da embalagem azul, usava um óleo de cenoura. Estendíamos as toalhas atrás das barracas da praia, aproveitando a sombra do fim da tarde.

Lembro-me de dias em que o meu avô foi ter connosco à areia, enrolava as calças até à canela, calçava uns sapatos em canastra, chapéu preto. Talvez se sentasse numa rocha junto a nós, tenho uma foto dele assim. O nariz longo, os olhos semicerrados.

O escritor

Está na altura de voltar a escrever. Foi o que pensei enquanto subia no elevador, como moro no oitavo andar tenho tempo de pensar em muita coisa.

Há pouco, a minha mãe ligou-me a dizer que andavam (ela e o meu pai) a ler um livro e que estava lá escrita a palavra fleimão. Isto por causa da minha amiga que esteve doente com um fleimão na garganta.

Por falar nisso, como está a tua amiga?

Quando o meu pai lê um livro e gosta, a minha mãe começa também a ler o mesmo livro, ao mesmo tempo. Deixam o livro com marcas diferentes. O meu pai acorda às cinco da manhã, quando ainda não está calor, para apanhar batatas e por isso deve ler antes da hora da sesta, ou quando descansa a meio da manhã na sombra da cave. A minha mãe deve ler mais tarde, estica os pés num banquinho e deixa a televisão como ruído de fundo.

A este propósito, a minha mãe informa-me que o meu pai tem encontrado o escritor do livro que precisamente leem agora, no café onde vai todos os dias. O café é um misto de mercearia, tasca e venda da maior variedade de jornais e revistas que possam imaginar, expostos pelas paredes do estabelecimento. O meu pai, com o pão no saco transparente debaixo do braço e depois de beber um café,

Cheio, por favor

com a sua lata habitual, abordou o escritor.

Estou a gostar muito do seu livro.

O senhor escritor, amável, dedicou-lhe alguma atenção. Explicou-lhe que teve que estudar muito para escrever aquele livro, que viajou, que trouxe uma mala cheia de livros do outro lado do mundo.

O meu pai agradeceu e saiu. Provavelmente levaria as suas roupas da horta. Andou décadas vestido com fato, camisa e gravata, agora do que gosta é de andar com roupa de horta. Chegou a casa, pousou o saco do pão em cima da bancada da cozinha e disse

Isabel, agora deixa-me ler que é a minha vez.

eu não tenho três braços

Hora de ponta num restaurante. Estou de folga e pretendo um almoço de descompressão. Abriu uma hamburgueria nova,  decidi experimentar. Empregados jovens apressam-se com pedidos e imperiais e pratos. Um barulho de fundo de clientes à conversa. Os hambúrgueres demoraram a ser servidos mas compensam pelo sabor (cebola caramelizada, queijo da ilha). Nem a limonada tem demasiado açúcar , mas um agradável aroma a hortelã.

Por isso vou ignorar o humor da pessoa que nos serviu. Lamento que ela esteja a ter um mau dia.

Sorte Macaca- Conversas De Cafe Numa Manhã De Sol

Sou católico e praticante. Hoje o Cristiano faz trinta anos. Isto está jeitoso, agora até os reformados andam a roubar. Tu vais ser uma estrela de cinema. Tira lá um cafezinho, mas não muito cheio. És de um grande clube, tu. E lá de onde tu és, não há cafés? Eu estou aqui só a olhar para mim. Nós agora chamamos às loiras imperiais. Até o Minipreço põe os produtos que tem à venda aqui no correio da manhã. Sou angolano de primeira. Sabes o que os portugueses faziam quando chegavam a Luanda? Era procurar os cachos de banana. Eu tenho que evitar falar. Quando cá cheguei só se ouvia liberdade. Tu é que estás bem. Bruxo. Carros de 2007 para cima é que interessam. Vi um golf ontem impecável de 89, azulinho. Esta espécie de governo, o Costa.
Achas que aquilo é tabaco ou é…?

O Abacateiro

À porta do meu prédio há uma árvore que dá abacates. Hoje vi o homem que pede à porta do pingo doce a apanhar abacates para um saco de papel. Por vezes vejo abacates no chão, foi assim que percebi que era um abacateiro, porque até então era uma árvore como outra qualquer. Uma árvore numa rua à porta de um prédio onde sai e entra gente para os seus carros, com os seus casacos e sacos e bengalas e pensamentos.

As horas

O homem sobe a manga da camisola para ver as horas.
Rute, que horas tem no seu relógio?
A visita acaba às seis e um quarto. Agradecia que saíssem. Eu acompanho-os à porta, tenho que vos abrir o portão. E segue à nossa frente com o seu molho de chaves a chocalhar na presilha.